Política externa e comércio
Por que importa
Por que isso mexe com a sua vida
Nove de cada dez quilos de adubo usados no Brasil em 2024 vieram de fora, um quarto da Rússia [1], e adubo caro vira comida cara. Dos carros importados vendidos em 2025, 37,6% vieram da China [2]. E 28,7% das exportações vão para um só comprador, a China [3].
O que decide
O que decide se funciona
Ter para quem vender quando um comprador fecha a porta, e ter acordo que resista à troca de governo do outro lado. Cinco produtos, soja, petróleo, minério de ferro, carne e celulose, foram 90% do que o Brasil vendeu à China em 2024; para os Estados Unidos, a lista é mais variada [4].
Deu certo
Quando o Sul Global deu certo
A China é o maior comprador do Brasil: US$ 100 bilhões em 2025, e o saldo com ela, US$ 29,1 bilhões, foi 43% do saldo comercial do país [3]. Com a tarifa americana de 50% de julho de 2025 [19], as vendas para lá caíram 9,7% de janeiro a agosto de 2026, mas as vendas à China subiram 15%, US$ 10 bilhões a mais, cobrindo a perda [5]. O banco dos Brics aprovou 25 projetos no Brasil até 2025 [7].
Deu errado
Quando deu errado
O BNDES, o banco público de fomento, financiou obras de empreiteiras brasileiras na Venezuela, Cuba e Moçambique, e esses governos pararam de pagar: US$ 1,2 bilhão até dezembro de 2024, cobertos pelo Fundo de Garantia à Exportação, com dinheiro público [8], para o qual o Congresso liberou R$ 1,164 bilhão em 2018 [9]. Se a China parar de comprar soja, não há cliente desse tamanho [4]. As vendas à Argentina subiram 31% em 2025 [6] e caíram 17,5% de janeiro a agosto de 2026 [5]. E em 2024 o Brasil evitou a Nova Rota da Seda, o programa chinês de obras [10].
Deu certo
Quando o alinhamento deu certo
Em 2018 os Estados Unidos taxaram em 25% o aço de todos, e o Brasil negociou direto uma cota sem tarifa de 3,5 milhões de toneladas de placas por ano. Em 2024, 3,4 das quase 6 milhões de toneladas compradas pelas usinas americanas vieram do Brasil [11]. E o acordo Mercosul e União Europeia, negociado desde 1999, vale desde 1º de maio de 2026 e abre um mercado de 718 milhões de pessoas [12].
Deu errado
Quando deu errado
Em 2019 o Brasil abriu mão, na Organização Mundial do Comércio, dos prazos mais longos dados a países em desenvolvimento, em troca de apoio americano à entrada na OCDE, o grupo de 38 países, em maioria ricos, que fixa padrões de economia [13]. O convite só veio em 2022 [14], e em 2026 o Brasil ainda não é membro [15]. A cota do aço venceu em março de 2025 e não foi renovada [11]: o que um governo americano dá, o seguinte tira.
Deu certo
Quando o caso a caso deu certo
Com o Chile, o Brasil tem tarifa zero desde 2014 e assinou em 2018 um acordo bilateral sobre serviços, comércio eletrônico e compras de governo [16]. Com Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein, o acordo de setembro de 2025 zera a tarifa de 97% do que o Brasil vende a eles [17].
Deu errado
Quando deu errado
Desde 2001 o Mercosul, bloco de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, proíbe cada sócio de assinar sozinho acordo com desconto de tarifa [18]. Tudo depende de quatro governos, e demora: o acordo europeu levou 27 anos [12]. E negociar sozinho com alguém maior rende pouco: os Estados Unidos isentaram 44,6% das exportações brasileiras [19], liberaram 238 produtos em novembro de 2025 [20], e as vendas seguiram caindo [5].
O dilema
O dilema
Você escolhe quem pode fechar a porta para o Brasil: apostar no Sul Global dá saldo e liberdade de voto, mas concentra a venda num comprador que decide sozinho; alinhar-se ao Ocidente dá regras previsíveis e mercados ricos, mas as regras são deles e quem governa lá pode trocá-las; negociar com todos caso a caso dá flexibilidade, mas exige peso para negociar e depende de quatro sócios do Mercosul concordarem.
A seguir, os caminhos, um por tela, cada um com o que faz, o que custa e o argumento mais forte de cada lado.
Um caminho
Priorizar o Sul Global e os Brics, com autonomia frente às grandes potências
O que faz
trata China, Índia, África e América do Sul como parceiros prioritários. Fortalece os Brics, o grupo de Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e novos membros, e o banco dele, que empresta para obras. Não assina acordo que limite a liberdade de decidir em política externa e vota sem seguir o bloco ocidental.
O que custa
vender cada vez mais para um só comprador, a China, e receber dela produto industrial barato que aperta a fábrica brasileira. Financiar governo amigo pode virar calote pago pelo Tesouro. E a lista de amigos muda a cada eleição: se isso é bom ou ruim depende de você confiar no governo do momento, e o governo muda.
Argumento mais forte a favor
foi a China que comprou US$ 100 bilhões em 2025 e absorveu o que a tarifa americana travou. Quem tem vários compradores não é refém de nenhum.
Argumento mais forte contra
cinco produtos são 90% do que vai para a China, e ela decide sozinha quanto e de quem compra. O Brasil troca a dependência de uma potência pela de outra, sem tribunal nem regra escrita que a segure.
Um caminho
Alinhar-se a Estados Unidos, Europa e OCDE e adotar as regras deles
O que faz
conclui a entrada na OCDE, adotando as regras dela sobre imposto, concorrência, meio ambiente e compras públicas. Trata Estados Unidos e União Europeia como aliados preferenciais em comércio, defesa e tecnologia, busca um acordo com os Estados Unidos e mantém distância de Rússia, Irã e Venezuela.
O que custa
aceitar regras que o Brasil não escreveu e que às vezes protegem o produtor de lá, como o gatilho que deixa a Europa frear a carne brasileira se as vendas subirem 5% acima da média. E o aliado muda de ideia: a cota de aço de 2018 acabou em março de 2025 e em julho veio a tarifa de 50%.
Argumento mais forte a favor
regra assinada vale para o próximo governo, aqui e lá. Empresa e investidor confiam mais num país de padrões conhecidos, e confiança baixa o custo do dinheiro que o Brasil toma emprestado.
Argumento mais forte contra
o Brasil vende à China mais que o dobro do que vende aos Estados Unidos. Alinhar-se contra o maior cliente é pagar a conta de uma disputa alheia, e o convite da OCDE de 2022 ainda não virou cadeira.
Um caminho
Fechar acordos com todos, caso a caso, pelo interesse econômico
O que faz
negocia com quem quiser comprar e vender, sem bloco preferencial: Europa, Estados Unidos, China, Índia, países árabes, África. Cada acordo é medido pelo mercado que abre à empresa brasileira e pelo preço que baixa ao consumidor. Pede ao Mercosul que afrouxe a regra de negociar em conjunto.
O que custa
um acordo com a China que desagrade ao Ocidente pode custar outro acordo com o Ocidente, e vice-versa. Sem alinhamento fixo, cada governo lê o interesse econômico do seu jeito: se isso é bom ou ruim depende de você confiar no governo do momento, e o governo muda.
Argumento mais forte a favor
o Brasil não tem inimigo comercial e vende para todos os lados. Escolher um bloco é fechar porta de graça, e os acordos que saíram, com Chile, Europa e Suíça, saíram quando o critério foi o econômico.
Argumento mais forte contra
quem negocia sozinho com gente muito maior negocia fraco. Em 2025 o Brasil pediu, esperou e recebeu de volta só parte da tarifa, e ainda assim vendeu menos aos Estados Unidos em 2026. Bloco é peso, e peso falta ao Brasil sozinho.
A sua escolha
O que você escolheria
Toque no caminho que você seguiria. Dá para mudar depois, e deixar em aberto conta como resposta.
Política externa e comércio
Fontes
- Geopolítica Global dos Fertilizantes: impactos sobre o agronegócio brasileiro, Insper Agro Global, working paper 7/2025, novembro de 2025. abre em nova aba
- Release de imprensa da Anfavea sobre os resultados de 2025, 15 de janeiro de 2026. abre em nova aba
- Comércio Brasil-China atinge recorde de US$ 171 bilhões em 2025, Conselho Empresarial Brasil-China, boletim 198, janeiro de 2026, com dados do MDIC. abre em nova aba
- Boxe Comércio bilateral do Brasil com EUA e China, Relatório de Política Monetária de junho de 2025, Banco Central do Brasil. abre em nova aba
- Publicação Mensal Balança Comercial Brasileira, agosto de 2026, Secretaria de Comércio Exterior do MDIC. O endereço aponta sempre para a edição mais recente; a edição lida foi a de agosto de 2026. abre em nova aba
- Ranking dos países que mais importaram produtos do Brasil em 2025, Bora Investir da B3, janeiro de 2026, com dados do MDIC. Notícia usada porque as páginas de notícia do MDIC estão desligadas no período eleitoral. abre em nova aba
- O financiamento do Novo Banco de Desenvolvimento aos municípios: o caso de Sorocaba, Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil, outubro de 2025. abre em nova aba
- Perguntas e respostas sobre apoio à exportação, BNDES. abre em nova aba
- Congresso aprova verba para cobrir calote de Venezuela e Moçambique, Poder360, maio de 2018. Notícia usada porque a lei orçamentária correspondente não traz o destino do valor de forma legível. abre em nova aba
- Brasil e a Iniciativa Cinturão e Rota, Observa China, agosto de 2025. abre em nova aba
- Nota do Aço Brasil sobre novo anúncio de tarifas nos EUA, Instituto Aço Brasil, abril de 2025. abre em nova aba
- Sonhado há 30 anos, acordo Mercosul-UE entra em vigor, Agência Senado, abril de 2026. abre em nova aba
- Brasil abrirá mão de direitos na OMC para ingressar na OCDE, Agência Brasil, 19 de março de 2019, e Brasil abre mão de vantagens na OMC para buscar prestígio na OCDE, Consultor Jurídico, 20 de março de 2019. Notícias usadas porque a nota oficial do Itamaraty está em página desligada no período eleitoral. abre em nova aba Segunda página desta fonte abre em nova aba
- Brazil's Accession to the OECD, alerta da Paul Hastings, setembro de 2022, e Brasil começa o processo de entrada na OCDE, Agência de Notícias da Indústria da CNI, janeiro de 2022. Usados porque o site da OCDE bloqueia o acesso automatizado. abre em nova aba Segunda página desta fonte abre em nova aba
- OCDE: ativo estratégico para Brasil, Atricon, maio de 2026. abre em nova aba
- Câmara aprova acordo de livre comércio entre Brasil e Chile, Agência Câmara, 30 de junho de 2021. abre em nova aba
- Câmara aprova acordo de livre comércio entre Mercosul e o bloco europeu EFTA, Agência Câmara, 9 de junho de 2026. abre em nova aba
- Decisão CMC 32/00, Relançamento do Mercosul, relacionamento externo, texto integral no Sistema de Informação sobre Comércio Exterior da OEA. abre em nova aba
- Tarifaço exclui 44,6% das exportações do Brasil para EUA, informa MDIC, Agência Brasil, 31 de julho de 2025. Notícia usada porque a nota do MDIC está em página desligada no período eleitoral. abre em nova aba
- Exportações aos EUA caem 9,7% no ano, Exame, 10 de setembro de 2026, com dados do MDIC. abre em nova aba